Certamente que está
consciente das últimas
notícias
dos temas mais levados para os debates televisivos
actuais. “Onde está Madeline?”. Já agora,
interroguemo-nos também: onde estarão as 11
crianças portuguesas que também “desapareceram”?
Onze, pelo menos, é do que se fala,
faltando aquelas que não entraram nas estatísticas
nacionais. E o seu filho? Onde poderá
estar exactamente neste momento? Em que situações
é que ele costuma ficar sozinho? E no
caminho para a escola, vai só? Suponho que
estas são apenas algumas das questões que podem
ter passado pela sua mente, algumas vezes,
ao longo destas últimas semanas. Provavelmente,
também já “andou às voltas” a magicar se o
seu filho está em segurança, ou se corre riscos
de poder vir a ser mais um número das estatísticas!
O que fazer para salvaguardar a sua integridade
e o seu bem-estar? Como protegê-lo, mas
sem o “sufocar”? Veja algumas sugestões para
promover a segurança do seu filho, sem lhe tirar
completamente a sua autonomia.
Por volta dos 2 anos de idade, a criança
começa a procurar uma certa autonomia
(que é muito relativa, é claro!) face às figuras
paternas.
Por outras palavras, digamos que começa a afastar-se um pouco mais dos pais: vai uns
passinhos mais à frente, dá uma corridinha, vai além
para ver o que está por detrás daquela porta, começa
a correr pelos corredores dos supermercados, etc.
É também por volta dessa idade que se inicia a fase
“NÃO”, passando a ser uma palavra predilecta e proferida
quase que aleatoriamente. Isto no âmbito de a
criança querer afirmar a sua própria vontade. Portanto,
apesar de muitas pessoas pensarem o contrário,
esta autonomização faz parte de um bom desenvolvimento
emocional das crianças. Sem ela, a criança
torna-se desconfiada, medrosa e não adquire a confiança
em si mesma. Já para não falar nas prováveis
consequências já na fase de adulto. Provavelmente,
será muito desconfiado e inseguro, incapaz de decidir
e fazer escolhas, terá medo de falhar em qualquer
situação… Digamos que há mais probabilidades de
ser tornar um adulto incapaz de ser autónomo.
Portanto, não é muito aconselhável “amarrar” os
nossos filhos e dar-lhes “rédeas” demasiado curtas.
Porém, se os deixarmos completamente à solta, vamos
estar sempre com o estômago bem apertado a
pensar onde é que eles estarão, o que estarão a fazer
e, pior ainda, com quem estarão? Então, como
é que pode/deve proteger os seus filhos, sem os
sufocar?
Com os mais pequenos é bom estarmos sempre
com “um olho em cima”, mas deixemo-los afastarem-
se um pouco e “matarem” a curiosidade ao ver
o que está por detrás daquela porta. Com os mais
crescidos, mais ou menos a partir da altura em que
começam a ir para a escola sozinhos, desde o momento
em que podem/conseguem fazer um recado
sozinhos ou começam a ir brincar para o jardim
com os amigos, nessa fase é bom alertarmo-los para
um potencial perigo ou ameaça. Deve-se mesmo
explicar-lhes que existem raptos de crianças e que
há pessoas com más intenções, ainda que de maneira
subtil. Ou seja, também se deve explicar que nem
todas as pessoas são más e que nem toda a gente lhes
vai fazer mal. Não se deve utilizar essas explicações
para impedir que os “pestinhas” se portem mal, tal
como o pretexto de: “se te portas mal, vem o homem
do saco e leva-te”. Este tipo de ameaças só as vão
aterrorizar e inibir todos os seus comportamentos:
os maus, mas também os bons. A criança fica com
medo de poder fazer mal determinada coisa e
de, por isso, ser levada pelo “homem do saco”,
deixando de agir e de fazer coisas próprias da
sua idade que são necessárias para o seu bom desenvolvimento
emocional.
O mais importante é potenciar os nossos filhos
com a capacidade de se defenderem e, sobretudo,
de evitarem o perigo, de modo a minimizarem as
probabilidades de lhes acontecer algo de mau. Assim,
estamos a dar-lhes capacidades para algo e não
a tirar-lhes, tal como aconteceria se os quiséssemos
manter imunes a qualquer perigo do exterior.
De uma forma sucinta, podemos dizer que todas
as crianças devem crescer em segurança, mas sem
que lhes seja roubada a sua autonomia e/ou autoconfiança.
Não a incapacite e não a apavore. Explique-
lhe, aconselhe-a e fortaleça-a, ensinando-a a
defender-se e a prevenir. Eis algumas sugestões para
“fortalecer” os seus filhos:
1
Não lhes “esconda” a realidade. Fale-lhes
dos potenciais perigos, responda às suas questões
e tire-lhes as suas dúvidas;
2
Fale do cuidado que deverão ter no contacto
com pessoas estranhas.
Ofertas de guloseimas, promessas e convites feitos por estranhos
devem ser completamente rejeitados;
3
Ensine os seus filhos a dizer NÃO. Qualquer
insistência por parte de alguém de quem
não gostam, de quem não confiam ou, mesmo, de
quem não conhecem deve ser expressamente recusada.
Ninguém deve fazer nada contra sua vontade
e, sobretudo, uma criança;
4
Diga-lhes que, por vezes, pode ser necessário
recorrer à ajuda de um adulto para
evitar que um outro lhes possa fazer mal.
O pedido de ajuda torna-se necessário quando a
criança se percepciona como incapaz de afastar algo
ou alguém que vê como perigo ou ameaça;
5
Explique-lhes a importância de abandonar
locais onde não se sintam “confortáveis”,
onde se apercebam que há alguém não desejado
a rondar outras crianças;
6
E diga-lhes que, no caso de lhes poder acontecer
algum mal, não precisam de ter
vergonha ou de se sentir mal pelo que aconteceu,
dizendo que as crianças nunca têm culpa. Devem,
portanto, denunciar “quem foi” junto dos pais e
contar o que aconteceu, para que se possa tomar
medidas para punir o agressor e, sobretudo, para
poder prevenir que algo de semelhante possa novamente
acontecer.
Dra. Mónica de Sousa, psicóloga Clínica
e da Saúde do Centro de Medicina
e Reabilitação do CECD Mira-Sintra (Cacém)