Sábado, 1 de Setembro de 2007
Como proteger os seus filhos sem os "sufocar"

Certamente que está

consciente das últimas

notícias

dos temas mais levados para os debates televisivos

actuais. “Onde está Madeline?”. Já agora,

interroguemo-nos também: onde estarão as 11

crianças portuguesas que também “desapareceram”?

Onze, pelo menos, é do que se fala,

faltando aquelas que não entraram nas estatísticas

nacionais. E o seu filho? Onde poderá

estar exactamente neste momento? Em que situações

é que ele costuma ficar sozinho? E no

caminho para a escola, vai só? Suponho que

estas são apenas algumas das questões que podem

ter passado pela sua mente, algumas vezes,

ao longo destas últimas semanas. Provavelmente,

também já “andou às voltas” a magicar se o

seu filho está em segurança, ou se corre riscos

de poder vir a ser mais um número das estatísticas!

O que fazer para salvaguardar a sua integridade

e o seu bem-estar? Como protegê-lo, mas

sem o “sufocar”? Veja algumas sugestões para

promover a segurança do seu filho, sem lhe tirar

completamente a sua autonomia.

Por volta dos 2 anos de idade, a criança

começa a procurar uma certa autonomia

(que é muito relativa, é claro!) face às figuras

paternas.

Por outras palavras, digamos que começa a afastar-se um pouco mais dos pais: vai uns

passinhos mais à frente, dá uma corridinha, vai além

para ver o que está por detrás daquela porta, começa

a correr pelos corredores dos supermercados, etc.

É também por volta dessa idade que se inicia a fase

“NÃO”, passando a ser uma palavra predilecta e proferida

quase que aleatoriamente. Isto no âmbito de a

criança querer afirmar a sua própria vontade. Portanto,

apesar de muitas pessoas pensarem o contrário,

esta autonomização faz parte de um bom desenvolvimento

emocional das crianças. Sem ela, a criança

torna-se desconfiada, medrosa e não adquire a confiança

em si mesma. Já para não falar nas prováveis

consequências já na fase de adulto. Provavelmente,

será muito desconfiado e inseguro, incapaz de decidir

e fazer escolhas, terá medo de falhar em qualquer

situação… Digamos que há mais probabilidades de

ser tornar um adulto incapaz de ser autónomo.

Portanto, não é muito aconselhável “amarrar” os

nossos filhos e dar-lhes “rédeas” demasiado curtas.

Porém, se os deixarmos completamente à solta, vamos

estar sempre com o estômago bem apertado a

pensar onde é que eles estarão, o que estarão a fazer

e, pior ainda, com quem estarão? Então, como

é que pode/deve proteger os seus filhos, sem os

sufocar?

Com os mais pequenos é bom estarmos sempre

com “um olho em cima”, mas deixemo-los afastarem-

se um pouco e “matarem” a curiosidade ao ver

o que está por detrás daquela porta. Com os mais

crescidos, mais ou menos a partir da altura em que

começam a ir para a escola sozinhos, desde o momento

em que podem/conseguem fazer um recado

sozinhos ou começam a ir brincar para o jardim

com os amigos, nessa fase é bom alertarmo-los para

um potencial perigo ou ameaça. Deve-se mesmo

explicar-lhes que existem raptos de crianças e que

há pessoas com más intenções, ainda que de maneira

subtil. Ou seja, também se deve explicar que nem

todas as pessoas são más e que nem toda a gente lhes

vai fazer mal. Não se deve utilizar essas explicações

para impedir que os “pestinhas” se portem mal, tal

como o pretexto de: “se te portas mal, vem o homem

do saco e leva-te”. Este tipo de ameaças só as vão

aterrorizar e inibir todos os seus comportamentos:

os maus, mas também os bons. A criança fica com

medo de poder fazer mal determinada coisa e

de, por isso, ser levada pelo “homem do saco”,

deixando de agir e de fazer coisas próprias da

sua idade que são necessárias para o seu bom desenvolvimento

emocional.

O mais importante é potenciar os nossos filhos

com a capacidade de se defenderem e, sobretudo,

de evitarem o perigo, de modo a minimizarem as

probabilidades de lhes acontecer algo de mau. Assim,

estamos a dar-lhes capacidades para algo e não

a tirar-lhes, tal como aconteceria se os quiséssemos

manter imunes a qualquer perigo do exterior.

De uma forma sucinta, podemos dizer que todas

as crianças devem crescer em segurança, mas sem

que lhes seja roubada a sua autonomia e/ou autoconfiança.

Não a incapacite e não a apavore. Explique-

lhe, aconselhe-a e fortaleça-a, ensinando-a a

defender-se e a prevenir. Eis algumas sugestões para

“fortalecer” os seus filhos:

1

Não lhes “esconda” a realidade. Fale-lhes

dos potenciais perigos, responda às suas questões

e tire-lhes as suas dúvidas;

2

Fale do cuidado que deverão ter no contacto

com pessoas estranhas.

Ofertas de guloseimas, promessas e convites feitos por estranhos

devem ser completamente rejeitados;

3

Ensine os seus filhos a dizer NÃO. Qualquer

insistência por parte de alguém de quem

não gostam, de quem não confiam ou, mesmo, de

quem não conhecem deve ser expressamente recusada.

Ninguém deve fazer nada contra sua vontade

e, sobretudo, uma criança;

4

Diga-lhes que, por vezes, pode ser necessário

recorrer à ajuda de um adulto para

evitar que um outro lhes possa fazer mal.

O pedido de ajuda torna-se necessário quando a

criança se percepciona como incapaz de afastar algo

ou alguém que vê como perigo ou ameaça;

5

Explique-lhes a importância de abandonar

locais onde não se sintam “confortáveis”,

onde se apercebam que há alguém não desejado

a rondar outras crianças;

6

E diga-lhes que, no caso de lhes poder acontecer

algum mal, não precisam de ter

vergonha ou de se sentir mal pelo que aconteceu,

dizendo que as crianças nunca têm culpa. Devem,

portanto, denunciar “quem foi” junto dos pais e

contar o que aconteceu, para que se possa tomar

medidas para punir o agressor e, sobretudo, para

poder prevenir que algo de semelhante possa novamente

acontecer.

 

Dra. Mónica de Sousa, psicóloga Clínica

e da Saúde do Centro de Medicina

e Reabilitação do CECD Mira-Sintra (Cacém)



publicado por Dra. Mónica de Sousa às 04:03
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